Seguidores

sábado, 14 de dezembro de 2019

OS PÉS DE MARIA


E um belo dia, quando lá do céu azul e sem nuvens o sol arrebentaria todas as mamonas se a cidade tivesse mamonas e aqueceria toda a natureza se a metrópole de cimento tivesse natureza, Maria despertou percebendo-se completamente estranha. Estava toda curvada e entortada com metade do corpo para fora da cama, parecendo uma minhocona com dois pés. O interessante é que o pé esquerdo estava assentado no tapete, enquanto o pé direito ficava levantando e abaixando, batendo no chão como se Maria estivesse impaciente. Mas Maria não estava impaciente, tinha acabado de acordar e nem sonhar sonhara, nem um pesadelinho sequer assombrara o seu merecido descanso. Maria tentou movimentar a parte do seu corpo que abandonara voluntariamente a cama, mas assustou-se porque não conseguia mexer os pés, uma vez que eles já estavam se mexendo sozinhos e o pé esquerdo agora também se mostrava frenético, balançando-se sofregamente. Ainda um pouco sonolenta a moça de camisolinha curta revelava um corpinho bem delineado, mas uns três quilos acima do peso ideal, pois andava se fartando no vício do chocolate para suprir carências afetivas. Maria esfregou os olhos para ver se aquilo realmente estava acontecendo e descobriu: estava acontecendo.

Foi assim, de repente. Os pés de Maria naquele dia decretaram independência e passaram a ter vida própria. Até que foram bonzinhos, pois eles esperaram Maria acordar. Ela surpreendeu-se quando os pés começaram a andar sem que ela quisesse, dirigindo-a até o banheiro. A jovem aprumou-se rapidamente para não ser arrastada pelos próprios pés. Uma situação esquisita, inusitada e embaraçosa. Os pés a levaram até o banheiro para que ela se compusesse, fazendo o ritual matinal de se arrumar para o novo dia que havia nascido. Sabedores da rotina de Maria, primeiro eles a conduziram até a privada para que ela descarregasse as necessidades fisiológicas reprimidas durante o sono. Depois a colocaram embaixo do chuveiro e Maria instantaneamente tomou uma deliciosa ducha refrescante, apesar de estar preocupadíssima pensando que estava trocando os pés pelas mãos. Terminado o banho e após ela se enxugar, os pés a postaram defronte ao espelho para que ela escovasse os dentes, penteasse seus lindos e longos cabelos loiros e se maquiasse de forma leve, apenas para realçar os traços marcantes do seu rosto, que nesse dia contavam com dois olhos azuis especialmente arregalados por não estarem entendendo que Maria não estava comandando os próprios pés. Será que um espírito havia baixado nela durante a madrugada? Será que ainda não havia acordado? Não era possível. Agora os seus pés determinavam seus rumos, atividades, caminhos. Aquilo era ridículo demais, mas era a real.

Sem querer fazer trocadilho, enquanto colocava a roupa Maria ficou imaginando quais seriam os próximos passos dos seus pés. Eles decidiram que Maria não ia parar na cozinha para tomar o café da manhã como todos os dias e a levaram por alguns quarteirões, até chegarem a uma padaria famosa no bairro pelos seus quitutes de desjejum. Maria sentou-se ao balcão, servindo-se de pães, roscas, bolachas, biscoitos, sucos, presunto, queijo, salaminho, frutas, café e leite. Até que tomar o café daquela maneira tinha sido uma boa idéia e ela se sentiu revigorada para enfrentar o metrô superlotado que a levaria ao trabalho. Tentando dar uma relaxada antes de pegar no batente, a jovem olhou para os seus pés aquietados sob o balcão e viu como eram bem torneados. Pareciam uma escultura tamanha a perfeição e simetria de suas linhas. Eram gêmeos, apesar de um par de pés. Objeto de adoração e desejo de qualquer podólatra, os pés de Maria já haviam protagonizado campanhas publicitárias em revistas diversas, o que dera a eles uma aura de importância, uma relativa fama e reconhecimento.

OS PÉS DE MARIA - Parte 2


A moça era muito bela e aqueles pés já haviam sido responsáveis pela conquista de vários amores. Ela mesma nunca tinha tomado quaisquer pés em sua formosa bunda. Se tivessem cérebro dir-se-ia que aqueles pés tinham o mesmo pensamento. As unhas cresciam de forma homogênea e eram bem pintadas, além de cuidadas por uma podóloga periodicamente. O sincronismo no andar de Maria chamava a atenção de quem lhe assistisse um mero três passos. Não marchavam passos em falso os seus pés. Eles calculavam o tempo e o espaço milimetricamente antes de se alternarem entre o ar e o chão, em uma deslocação graciosa, harmoniosa e repleta de sensualidade. Maria foi despertada do seu devaneio quando os pés deram sinal de vida. Mal deixando que pagasse a conta, saíram agitados do estabelecimento fazendo a jovem esbarrar em pessoas aqui e acolá.

Caminhava Maria pela calçada praticamente carregada pelos seus pés e completamente distraída pela rara situação que vivenciava, quando subitamente foi cercada por três meliantes que anunciaram um assalto. Antes que a própria Maria se pusesse a gritar ou a obedecer aos malfeitores, o seu pé direito atingiu com dois golpes certeiros a arma e a boca do primeiro assaltante, espalhando dentes pra todos os lados. Em seguida, obrigada pela força das pernas, Maria rodopiou o corpo e mandou outro golpe, este com o pé esquerdo, quebrando o nariz do segundo assaltante e quase simultaneamente acertando violentamente o terceiro em suas partes baixas. A partir daí foi uma seqüência de pancadas dignas de um Bruce Lee. Todos os passantes assistiram a performance atônitos, mas ninguém mais estupefato do que Maria, vendo aquela sucessão de pontapés e pernadas que nunca pudera cogitar de saber. Os larápios ficaram desacordados e sangrando no chão. Ela continuou batendo neles, o que motivou o apelo das pessoas para que parasse. Pediram para a franzina e perigosíssima loirinha suspender o espancamento, pois iria matar os três homenzarrões. Foi hilário e ao mesmo tempo surpreendente para todos verem Maria tentando segurar as suas pernas com as mãos, clamando para elas cessarem o ato violento. Maria lutou bravamente com suas pernas e pés até que se desequilibrou e caiu no chão sob os olhares incrédulos dos populares. Imediatamente os pés de Maria levantaram-na e passaram a correr, mas a correr muito escapando facilmente dali. Naquele momento Maria venceria com folga os 100 metros rasos na olimpíada ou bateria o recorde da maratona de Nova York. Após mais de dez quilômetros cobertos rapidamente, Maria viu que não precisaria mais de condução. Estava na entrada do prédio da empresa em que trabalhava.

OS PÉS DE MARIA - Parte 3


O escritório em que Maria trabalhava ficava no décimo nono andar do edifício, mas quem falou que os pés da moça subiriam pelos elevadores? A loirinha não acreditou quando os seus pés alcançaram as escadas e foram pulando os degraus de três em três. Ela sacolejava tanto que parecia cavalgar cangurus. Não parecia estar nela mesma tal era o seu desespero. Chegando ao andar correto, os pés de Maria chutaram a porta e entraram calmamente. Os olhares de todos os funcionários seguiram fixamente Maria indo em direção da sala do presidente da empresa. Os pés dela chutaram também a porta da sala dele e fizeram a moça espantada sentar-se na cadeira do patrão, que para sorte dela ainda não havia chegado. Não satisfeitos com aquela cena, os pés de Maria se colocaram para cima da mesa do homem e assim ficaram até que ele chegasse, por mais que a moça empreendesse esforços para tirá-los dali e por mais que os seus colegas de trabalho rogassem a ela que terminasse com aquela loucura. Maria, totalmente descabelada e com o rosto vermelho, parecia realmente uma doida puxando os pés e berrando para eles deixarem a mesa. Berrava também para os funcionários dizendo que não tinha culpa por aquilo que os pés dela estavam fazendo. É claro que o patrão chegou nessa hora e espumou de ódio ao ver Maria, histérica, sentada em sua cadeira com os pés na sua mesa e a maior confusão na sala. Foi demissão sumária por justa causa e ainda com recomendação de tratamento psiquiátrico para a jovem ex-empregada. Após o tumulto os pés de Maria e Maria saíram tranquilamente da empresa enquanto os colegas comentavam com tristeza que a moça havia surtado e precisaria de internação, coitadinha

Os pés de Maria não se sensibilizaram com o estado catatônico da moça após os episódios até então acontecidos. Prosseguiram a caminhada desprezando o cansaço da rapariga, que estava desgastada não só pelo desmesurado esforço físico despendido como principalmente pelo aspecto emocional, pois estava ficando alucinada com aquele problema. Afinal, de uma hora para outra passara a compartilhar o seu corpo com aqueles pés que agora julgava estranhos à sua pessoa. Isso abalaria qualquer ser humano, ter o seu livre-arbítrio de locomoção, o seu direito sagrado de ir e vir comprometido. A situação dela era muito mais complicada do que a de um cadeirante, por exemplo, que contava com rodas que poderia acionar mecanicamente tendo força nos braços. A ela não estava sendo dada opção nenhuma. Tinha que ir aonde os seus pés lhe determinassem e ainda fazer o que eles indicavam, pois senão ela ficava no lugar plantada que nem um poste.

Maria não sabia como conseguir ajuda e imaginou um diálogo com um senhor que ia andando pela calçada perto dela: - Por favor, meu senhor. Será que o senhor poderia me pegar no colo e me levar a um médico? Os meus pés hoje ganharam vida própria e não me deixam ir sozinha até onde quero ou preciso! Com certeza ninguém lhe daria ouvidos. Virariam as costas, iriam rir, humilhá-la, abandoná-la feito um fantoche que uma criança brincou até cansar, para depois esquecer nos fundos de uma gaveta. Ela ficaria a mercê da vontade dos seus pés. Maria, mesmo com o pouco tempo em que aquela loucura estava ocorrendo, sentiu saudades da sua liberdade. Aquela prisão aberta era horrível. Ser manipulada daquela maneira certamente era um dos piores castigos que alguém poderia sofrer. A falta de privacidade, sentir que o seu cérebro plenamente lúcido e em perfeito funcionamento nada significava, não comandava os seus atos ou os seus mais comuns anseios, faziam o episódio ser completamente absurdo. Era como se Deus a houvesse transformado na mais moderna e inteligente das máquinas, mas que eternamente saberia os seus limites de máquina.

A jovem continuou a refletir e começou a se arrepender de não ter ido a tantos lugares que precisava e queria ter estado. Quantas visitas ela não havia feito, adiando, adiando, deixando para além do depois. Por outro lado, pensou também em quantos passos errados poderia ter evitado, mas que pudera escolher livremente. Normalmente tomava decisões tarde demais. Sempre andara pé-ante-pé na vida, hesitante, excessivamente cautelosa, com os pés atrás... Será que aquela preocupação exagerada em viver e tomar decisões, o medo de errar, o pensar mil vezes antes de agir tinham ido parar nos seus pés? Será que eles tinham odiado tanto que ela vivia com eles atrás? Será que ela havia se transformado num novo tipo de zumbi? Apenas nos mais escabrosos filmes trash de terror poderia acontecer algo semelhante. Por que ela, por que com ela? Descontrolada e como tinha pleno domínio das suas mãos, puxou os seus cabelos violentamente para trás e esbofeteou o próprio rosto sem dó no meio da rua, enquanto as pessoas chamavam a polícia para buscar uma louca agressiva que estava se auto-flagelando na frente de crianças. Jogou-se no asfalto e tentou se arrastar, mas o máximo que conseguiu foi se ralar e sujar toda, pois os pés emitiam uma força descomunal e preponderante sobre as suas pernas e cintura, tornando impossível reagir. Ela não tinha a capacidade de definir qualquer ação. Perdera qualquer possibilidade de determinar seus movimentos. Só conseguiria realizar qualquer atividade com a prévia concordância dos seus pés. Nem se estivesse com correntes nos pés seria tão ruim. E os seus pés não tinham parada. Antes que a polícia chegasse os pés de Maria a tiraram dali voando, acabando com o espetáculo patético e deprimente da moça ensandecida.

OS PÉS DE MARIA - Parte 4


Os pés de Maria a conduziram a uma academia de ginástica. Só faltava essa. Os seus pés indiretamente estavam lhe afirmando que precisava queimar umas calorias. Sabia que não adiantaria lutar contra, então pagou por algumas horas de tortura em esteiras, bicicletas, piscinas, aparelhos de musculação, exercícios de alongamento, ginástica rítmica e tudo o que qualquer viciado no culto à boa forma poderia desejar. Não era o caso dela, que estava só um pouquinho fora do peso ideal. Mas Maria parecia a Daiane dos Santos em inicio de carreira, tamanho o afinco com que seus pés obrigaram-na a mergulhar rumo à saúde do corpo.

Maria se exercitou por longo tempo com a atenção de toda a academia, até que teve uma idéia que para ser executada, necessitaria de muita coragem e perspicácia antes que os seus pés descobrissem o seu intento. Seria dolorido, mas talvez se algum daqueles pesos menores caísse em seus pés poderia deflagrar a volta à normalidade. Cada vez que passava perto dos pesos ela media as possibilidades. Nesse caso não era hesitação, era estratégia. Certa hora ela agiu, pegou um peso e atirou sobre o seu pé direito gritando ‘toma filho duma putaaaaa... ’ Os freqüentadores e instrutores da academia se sobressaltaram com aquilo e se admiraram ao ver o pé direito de Maria desviar para o lado escapando de um quase esmagamento por um triz. Maria agarrou-se num aparelho com uma das mãos e com a outra passou a pegar pesos e atirar nos seus pés, mas eles desviavam de todos com uma rapidez incrível. Os instrutores se aproximaram da maluca e a seguraram fortemente para impedir que ela continuasse com aquele desvario, mas Maria realmente perdera a razão e tudo o que viu pela frente usou para tentar atacar, cortar, machucar, atravessar, fincar e ofender os próprios pés. Mas eles, os pés de Maria, eram muito mais ágeis e a tiraram de perto dos instrutores e de qualquer objeto que ela pudesse utilizar como arma. Pasmos, os clientes da academia chamaram uma ambulância julgando que Maria havia fugido de algum hospício. Devia ser uma louca com síndrome de autodestruição, uma suicida em potencial, uma masoquista extremista tremendamente nociva à sociedade. Os pés de Maria espertamente pularam uma janela aberta e a carregaram dali, afastando qualquer risco ou chance dela ser aprisionada. Maria sorriu quando percebeu que estava entrando outra vez em casa, no seu banheiro, embaixo da sua ducha para mais um banho relaxante. Estava quebradíssima...

Os pés indicaram a Maria em seu armário qual a roupa que ela deveria usar. Ela vestiu uma calcinha justa, um vestidinho curto e leve, vestimenta adequada para aquela tarde quente. Com seus seios firmes e volumosos, no auge dos seus 24 anos, soutiens eram dispensáveis. Colocou a sandália preferida dos seus pés e lá foram perambulando pelas ruas. Pararam em um restaurante de comidas naturais e Maria nem pestanejou para fazer o seu prato, pois os pés paravam na frente das verduras e legumes que, na opinião deles, ela deveria degustar. Maria gostava mesmo é de uma suculenta picanha e suou para comer brócolis, pepino, escarola, abobrinha, bolinhos de soja sem sal, xuxu refogado... Depois da frugal refeição caminharam muito, até que os pés de Maria tomaram sentido mais definido. Ela percebeu que eles iam à direção de um estabelecimento onde havia vários homens na entrada. Ela ficou ressabiada, mas não tinha como recuar. Os pés se apressaram e ela conseguiu ler a placa. Era uma casa de strippers. Maria gelou. Qual era a intenção daqueles malditos pés? Desnudá-la inteira em sentimentos e vergonhas? Fez menção de se virar para retornar, mas era impossível, já estava dentro da casa, na beira do palco, os homens com a maior cara de tarados aplaudindo e assobiando. Maria era cheia de pudores, nunca tinha transado com um homem no primeiro encontro, tinha travas. Era linda, mas não tinha segurança da sua beleza. Mesmo dona de um belo e delicioso corpo, sempre encontrava defeitos nele, ou seja, nunca curtira o sexo de forma totalmente natural. A música rolou e Maria foi retirada desses devaneios porque os seus pés começaram a dançar, fazendo com que suas pernas se agitassem e sua cintura gingasse sensualmente.

Lá estava Maria, loirinha de olhos azuis, toda delicada, vendo aqueles nojentos babando por ela. O pior é que ela nem tinha como gastar o tempo, por estar vestindo pouquíssimas peças de roupa. Tirou uma sandália, jogou pro lado. Tirou a outra, jogou pro outro lado e os urros da turba soaram vociferantes, efeito dos seus maravilhosos pés que pareciam pintados por um artista romântico. Romântico e sacana demais, porque os pés de Maria provocavam um tesão imensurável nos homens. Ela se dirigiu ao cano colocado no centro do palco como se fosse uma stripper experiente. Os seus pés fizeram com que suas pernas grudassem no cano e ela subiu e desceu no ritmo da música, virou de ponta cabeça deixando o vestido cair, ficando somente com a calcinha minúscula para mostrar ao bando de depravados o seu corpo estonteante. Maria, ruborizada, no seu íntimo até que começou a se excitar e a gostar daquela estória, apesar de não querer admitir. Não tinha outro jeito mesmo, já estava quase nua. Largou o cano e os pés a aproximaram da ponta do palco. Ela, dançando, virou de costas, foi abaixando devagarzinho a calcinha deixando à mostra a sua bundinha saborosa e virgem. Os homens, de olhos vidrados, ficaram todos de pé gritando e aplaudindo a moça efusivamente, tipo um bando de gorilas vendo as macaquinhas no cio pulando de galho em galho. Com a calcinha nas mãos, os pés a viraram de frente e para surpresa da platéia fizeram com que Maria pulasse do palco para o meio dos homens onde foi apalpada, acariciada, beijada, lambida, mordiscada, arranhada, estapeada e chupada. Quando três homens pelados, ávidos por possuir Maria aproximaram os seus membros da moça que já havia se liberado ao prazer devasso e à luxúria, os seus pés resolveram acabar com tudo. Só deu tempo de vestir as sandálias, o vestido e correr levada pelos seus pés com o coração disparado.

OS PÉS DE MARIA - Parte 5


Maria e seus pés andaram por horas pela cidade. A falta de autonomia na decisão de seus passos era insuportavelmente desagradável, mas ela sorriu lembrando-se da última aventura. Nunca ela teria conscientemente e por vontade própria, encarado uma situação como a que havia vivido. Maria considerava-se bonita dentro do normal, morria de vergonha de tirar a roupa pela primeira vez na frente de um namorado e mesmo com o aumentar da intimidade não se sentia completamente à vontade permanecendo nua por muito tempo. Aquela experiência realmente mexera com ela, com os seus desejos reprimidos. Sim, ela curtira ter provocado aquele bando de desequilibrados. Dizem que muitas mulheres fantasiam secretamente realizar ensaios eróticos para uma revista masculina e Maria, que nunca fantasiara nada, descobrira um lado totalmente desconhecido para ela, um lado que os seus pés lhe mostraram e sem que ela quisesse a fizeram explorar.

A jovem chegou à faculdade onde cursava economia. Os seus pés a levaram até a sala de aula e a posicionaram no centro da primeira fileira de carteiras. O professor de estatística, um senhor de meia idade metido a moralista, um verdadeiro carola, adentrou o recinto iniciando as suas tediosas explicações. Quando os alunos permaneciam todos quietos na sala executando os trabalhos solicitados, Maria, naquele momento sem tantos pundonores, pensou que seria engraçado provocar o homem com uma cruzada de pernas a lá Sharon Stone. Ela acabara de lembrar que a sua calcinha havia sido deixada no palco da casa de streaptease. Aquela maluquice toda realmente estava mexendo com Maria. Nunca ela pensaria uma bobagem como aquela. Não era o seu feitio, não combinava com o jeito dela, arredia a essas estripulias mundanas. Não era uma jovem tão certinha e também não saia tanto dos padrões, ou seja, transitava num nível de ações convencionais. Não ultrapassava as barreiras medíocres das regras morais vigentes e recomendadas pela sociedade. Mas ela estava muito tentada a realizar aquela brincadeira, que nem era tão ousada assim. Esforçou-se em mover as pernas, mas ela havia se esquecido de um detalhe fundamental. Não combinara aquilo com seus pés, que pareciam não ter a menor intenção de lhe dar independência por alguns instantes, nem para um ato de banalidade. Não conseguiu deslocar as pernas um milímetro por mais que forçasse. Ia continuar com zero em estatística, pensou Maria com o lindo rosto emburrado por não poder andar com os próprios pés.

Os pés de Maria, entretanto, tinham planos bem mais atrevidos para a moça naquela noite de sexta feira. A jovem tinha uma queda oculta por um rapaz de quem era colega de classe, que gostava dela, vivia lhe dando cantadas e convidando para sair, mas Maria sempre recusava, não se permitindo entregar ao propósito saudável de ser possuída. Nessa noite os pés de Maria aceleraram os passos, fazendo com que a moça alcançasse o amigo. Os dois ficaram lado a lado, o que deixou o rapaz sensivelmente feliz e Maria um pouco corada e constrangida, pois não sabia quais seriam as intenções dos seus pés. Literalmente ela estava nas mãos dos seus pés! O estacionamento era distante e Maria foi obrigada a ficar bem juntinho, caminhando grudadinha com o amigo, o que o deixou excitado e fez com que a abraçasse e perguntasse se ela toparia ir tomar um vinho na casa dele. Ele não sabia, mas ela já estava indo, não tinha como voltar, escapar, não poderia recusar desta vez. Maria estava sem alternativas e se controlasse as suas pernas elas estariam tremendo, porque a moça estava com um misto de frio na barriga e um calor insuportável em todo o corpo. Mas os pés de Maria não tremeram e seguiram resolutos até o carro do rapaz, que nem acreditou quando abriu a porta do automóvel e a sua paixão entrou sem pestanejar.

Já no apartamento o rapaz ficou perplexo com a desenvoltura de Maria, que sem delongas foi para o quarto e sentou-se em sua cama. Ele nem percebeu o olhar da moça, que continha uma mistura de tesão com revolta por estar sendo praticamente violentada pelas ordens dos seus pés. O apaixonado amigo, estimulado pelo ar decidido que via em Maria, também nem pestanejou e tirou toda a roupa em pé, bem na frente dela e quando estava completamente nu, meu Deus, pensou Maria. Como podia um rapaz de tamanho mediano ter um pau tão descomunal? O cara não era um simples bem dotado, ele era o próprio Homem de Itu. O famoso Homem Jegue estava ali na frente dela e o pau dele já estava na sua boca, indo e vindo até a sua garganta virgem. A jovem imaginou o que a esperava. O rapaz retirou o vestido dela e ficou louco quando a descobriu sem calcinha, sem mais nada por baixo. Ali estava o sonho de consumo sexual dele só de sandálias na sua cama. As sandálias logo foram dispensadas, o que fez o privilegiado ter a libido subir aos píncaros, pois estava beijando os famosos, maravilhosos e deslumbrantes pés de Maria, que ficou com ciúme, pois aqueles pés não eram mais dela e ela estava toda nua, pronta para ter momentos que nunca se deixara desfrutar na vida.

OS PÉS DE MARIA - Parte 6


Depois do rapaz ter saciado a volúpia pelos pés de Maria, veio a nova etapa que ela percebeu ia adentrar a madrugada, porque os seus pés tomaram as rédeas da transa. Eles fizeram com que enlaçasse o rapaz energicamente com as pernas, puxando-o para dentro dela. E ele entrou todo de uma vez, muito fundo, tão fundo que Maria sentiu o membro do cara quase atravessá-la. E então os pés de Maria fizeram-na rebolar, se mexer, se movimentar, nunca o rapaz experimentara um sexo tão intenso, nunca ele tinha gozado tanto, muito menos Maria, que não agüentando mais vários orgasmos múltiplos e simultâneos, gritou a pleno pulmões “que bom, que bom, chega!” Até que os pés de Maria deram o veredicto final. Viraram a jovenzinha de costas para o rapaz. Quando o pênis desproporcional do três pernas viu aquela suculenta e nunca desbravada bundinha, armou-se feito um mastro de navio. Maria apenas fechou os olhos e deixou-se levar em todos os sentidos pelos seus pés.

Tanto Maria quanto o rapaz ficaram tão extenuados pela maratona em que atracaram seus corpos, que dormiram toda a manhã de sábado. Os pés de Maria a acordaram lá pelas treze horas, ela se espreguiçou e logo sentiu o aroma de sexo que a impregnava inteira. Estava bem dolorida, devido às qualidades métricas do pênis do seu amante, o que a fez voltar àquele sentimento combinado de satisfação pelo tesão reprimido há tempos e que havia saciado de forma exacerbada, com a revolta de não poder dominar as suas ações. As suas sensações estavam comprometidas porque se tornara escrava dos propósitos mais esquisitos e rasteiros dos seus pés. Se eles quisessem torná-la uma prostituta, uma empregada doméstica, uma jogadora de futebol, uma equilibrista de circo ou uma bailarina eles o fariam. Ela não tinha condições de impedir nada, não lhe era permitido escolher. Aquilo foi novamente dando uma agonia profunda em Maria. Ela só contava com vinte e quatro anos, tinha uma vida longa pela frente, mas não poderia vivê-la assim, como uma serva sem os direitos mínimos que um ser humano precisa para ser digno. O enorme desrespeito a magoava demais, pois se transformara numa marionete sujeita aos caprichos de dois pés que refutava como seus. Eles estavam colados ao seu corpo como dois parasitas que dela haviam se apoderado. Maria não via outra solução a não ser ceifá-los das suas pernas ou então acabar com a sua breve existência de vez.

Antes que Maria pudesse pensar em qualquer atitude os seus pés, andarilhos vis, passearam pela cidade enquanto ela divagava a mente. Queria ir embora do seu corpo desvestindo aqueles pés como se fossem dois sapatos. Almejava flutuar feito uma folha de árvore, voar como um passarinho. Queria volitar, espírito liberto da carne, ou transformar-se simplesmente numa suave brisa.

Entretanto, já no escuro da noite, ouviu um som ensurdecedor que vinha de uma casa noturna localizada na esquina próxima. A noitada especial do lugar trazia a São Paulo os piores representantes desse inominável gênero não musical apelidado de funk. E estavam mandando ver um daqueles funks gritados que só transmitem asneiras e colocam as mulheres como seres sem cérebro, sacolejando as protuberantes nádegas de forma tão sensual quanto um filme pornô protagonizado por primatas. Isso era demais. Maria na infância praticara balé clássico, tinha um gosto musical aprimorado no estudo de música erudita. Baile funk não, Maria pediu aos seus pés, quase arrancando o dourado cabelo. Mas não houve acordo. Quando caiu em si ela estava no meio do salão se esfregando e sendo esfregada por quatro caras sem camisa, com as calças caindo e fedidos de suor. A catinga deu náuseas em Maria. Entretanto, o sucesso da atuação dos seus pés fez com que a banda a chamasse ao palco, onde quase em prantos foi realizar aquilo que poderia ser chamado de qualquer coisa menos dança. Vascolejando o corpo por horas, fez a galera enlouquecer acompanhando-a com as cabeças ocas ou repletas de fumaça.

Quando saiu do salão Maria estava moída. Só os seus pés não doíam ou demonstravam cansaço. As olheiras pareciam máscaras para o azul agora desbotado dos seus olhos. Os cabelos completamente desgrenhados e o vestido desalinhado eram o retrato do seu interior. O seu estado emocional era deplorável, pela destruição psicológica que todos aqueles acontecimentos toscos haviam causado à sua personalidade. No seu íntimo ela queria somente desaparecer. Maria se sentia fraca, a fadiga mental era violenta. Não entendia o que acontecia com ela e porque era personagem daquela situação sem pé nem cabeça, ou melhor, só com pé. Aonde aquilo ia dar? Não havia sentido. O esgotamento era tanto que os famigerados pés a ajoelharam na calçada para Maria chorar e ela chorou desveladamente. Após esse desabafo, os pés de Maria concederam a ela repousar numa carrocinha dessas que são usadas por catadores de papel, latinhas e objetos diversos. A jovem, aliviada, dormiu bastante ao relento, sob o testemunho da luz da lua. Todas as estrelas se retiraram do céu, como que protestando pelo sofrimento de Maria. Ela assim ficou até que ao amanhecer começou a ter um pesadelo em que os seus pés, frente a uma bifurcação, discordavam entre eles sobre qual caminho seguir. Cada um queria ir para um lado. No instante em que ela ia se partir em duas, acordou aos gritos e suando frio.

OS PÉS DE MARIA - Epílogo


Maria abriu os olhos e agiu rápido, quase sem pensar. Ao encontrar uma corda no fundo da carrocinha, amarrou-a e prendeu-a em seu pescoço. Sabia que não conseguiria cortar aqueles pés nem com um serrote, portanto só lhe restava a opção de morrer para se libertar do jugo malévolo a que estava sendo submetida. A jovem segurou a ponta da corda e com um nó apertou-a cada vez mais forte na garganta. Queria libertar os seus passos, queria se sentir humana novamente, ser dona dos seus erros e acertos, suas escolhas e vontades. Bastava de mergulhos na imensidão do obscuro. Não haveria mais hesitação porque não existiria mais Maria, pensou a moça, olhando para a árvore ao lado. Maria jogou a outra ponta da corda em um galho e imediatamente deu um nó de marinheiro irrepreensível. Puxou a corda com uma força que nem sabia onde buscara. Quando os pés de Maria fizeram-na pular da carrocinha para iniciar mais um périplo a esmo pelas ruas, ela ficou pendendo no ar deixando os seus pés soltos balançando desesperados à procura de apoio. Maria havia prendido a corda de um jeito que não tinha como se safar. O fim do suplício estava próximo. O auto-enforcamento prosseguiu sem que seus pés conseguissem uma forma de impedir, por mais que lutassem. Maria começou a ficar roxa, o sangue foi parando de circular, a língua saltou para fora da boca junto com a baba. Os maravilhosos olhos azuis cobertos de lágrimas se reviraram nos globos oculares. Os pés de Maria tremiam em espasmos enquanto o seu corpo morria sufocado em busca da libertação sonhada. Em seus estertores finais, o sorriso de felicidade no rosto disforme de Maria era de estarrecer.

Inesperadamente, diversas mãos seguraram Maria. Outras mãos a livraram da corda e a puseram no chão. Maria, que se preparava para o último alento, recebeu o ar em seus pulmões, bálsamo que realimentou o seu cérebro de esperanças. O sangue voltou a circular em seu corpo, a cor retornou aos poucos à sua face. A moça, deitada de costas no chão, recuperou-se à existência. Olhou agradecida para o céu, sem ouvir as palavras que os seus salvadores lhe diziam. Após um tempo, ressabiada preparou-se para a prova final. Reuniu toda a potência da sua mente, a energia positiva acumulada desde a sua origem e tentou mover os seus pés. Os pés de Maria obedeceram a sua autoridade e ela começou a rir. E ria. E olhava para o céu. E ria e olhava para os pés, virando-os, movimentando-os, mexendo todos os dedos. Maria ria, Maria chorava e ninguém entendia o que aquela maluca que tentara o suicídio estava sentindo ao executar um gesto tão simples como mover os dedos. Outra vez detentora dos seus atos, Maria abraçou cada pessoa que a tinha salvado, despediu-se e saiu andando descalça pela rua. Um pouco mais a frente tirou o vestido e prosseguiu completamente nua. Maria íntegra, limpa, livre de corpo e alma, foi caminhando assim, despojada de todo o seu passado rumo ao futuro. Foi andar a vida passo a passo, decidida apenas a andar. Andar para o seu destino. Andar sempre pra frente. Andar...

FIM

O NEGÃO


Poderia ser o orgulho da raça negra. Dono de uma pele tão densamente escura que reluzia e ofuscava quaisquer olhares admirados ou menos admirados, preconceituosos ou despojados, invejosos ou salutares. Era impossível que não chamasse a atenção dos passantes. Enorme de altura, forte e atlético, desfrutava de feições delineadas por um artesão que o moldara rústico e delicado nos pontos certos. Passeava seu ar nobre sem ser arrogante, sabedor que a sua presença despertava desejo nas mulheres e impunha respeito nos homens. Aproveitava muito bem esse poder em seu trabalho de modelo, que vestia durante as vinte e quatro horas do dia como uma armadura, sempre pronto para o embate com um mundo discriminador em todos os sentidos.

Era sempre escolhido para fotografias ou desfiles onde apresentasse o corpo talhado em horas e horas de academia. Bastava tirar a camisa e mostrar o dorso apolíneo que os suspiros do mulherio eram ouvidos sem dissimulação. Isso acontecia em todas as ocasiões. Certa vez foi contratado para um desfile de peças íntimas masculinas, vulgarmente conhecidas como cuecas. Exigiu camarim exclusivo e apenas a presença dos pais foi permitida para ajudá-lo nas trocas de peças. Nesse dia, no auge da forma esplendorosa, o evento foi tão divulgado que a notícia se espalhou rapidamente pela cidade. O público compareceu em tão grande número que superlotou o lugar. Filas se formaram na porta, tumultuando o trânsito na rua. Até cambistas surgiram para vender ingressos do desfile que era só para convidados. Foi preciso chamar a polícia para acalmar os ânimos dos mais exaltados e coibir o ímpeto libidinoso das mais desavergonhadas.

Rico, por ser integrante de uma família abastada e tradicional, inteligente pelo privilégio do estudo realizado nas melhores instituições até o terceiro grau, os promotores de eventos, festas e coquetéis o disputavam. Costumava ser celebridade cobiçada pelos principais organizadores de camarotes de shows e do carnaval. Aceitava os convites de acordo com os seus interesses, aproveitando para beliscar um contrato de publicidade ali, uma ponta numa novela aqui, uma participação num longa-metragem acolá, desfiles nas principais capitais do mundo da moda. Mulheres e homens se insinuavam para ele. Queriam se entregar nos corredores, nos banheiros, nos jardins, nos motéis, nos salões, nos flats, nas piscinas das mansões. Gente casada, gente solteira, gente viúva, gente divorciada, gente amigada, gente sozinha ou gente acompanhada, todos queriam descobrir o sabor daquele maravilhoso afro-descendente de raríssima estirpe.

Entretanto, um mistério rondava a sua singular personalidade. Nunca se soubera de um namoro dele de qualquer tipo. Flertava sem parar, paquerava como um mestre e destruía corações em todos os ambientes, mas nunca fora visto saindo com alguém. Paparazzis o perseguiam sem trégua e nada. Não era possível aquele espécime de Adônis viver sem um par. Contrataram detetives, em vão. Não descobriram ninguém. Apelaram para garotas de programas, gigolôs e festas de embalo sem alcançarem o objetivo. Ele não se entregava a mulher alguma. Permanentemente sóbrio, não corria riscos. Não se sabia de qualquer pessoa que tivesse tido o privilégio de ter com ele compartilhado uma noite intensa de sexo e amor. Era desconhecido que alguém o tivesse visto completamente despojado de roupas. Convidaram-no a fazer um filme pornô e ele gentilmente explicou que não era o seu estilo. Recusou uma fortuna ao negar a participação em um ensaio nu para uma revista gay.

Mas ninguém sabia a aflição que se passava no interior daquele jovem e talentoso negro, um homem bem sucedido que se recolhia transtornado todas as madrugadas à solidão da sua alcova. É que ele portava um sério problema que não conseguia superar desde criança, quando havia conquistado um apelido. Sim. Ele se envergonhava, sendo um negão que podia se orgulhar de tudo na vida, de um particular fato: tinha o pau pequeno, muito pequeno, verdadeiramente minúsculo, uma arremedo de tecido peniano, uma vírgula diminuta, quase que um clitóris, tão ínfimo era o seu pau!

O NEGÃO - Parte 2


Era um segredo guardado a dezessete chaves. Só o nosso personagem e seus pais sabiam na íntegra o que ele já houvera passado. Quando nasceu, o pai assistiu emocionado o rebento irromper do casulo materno. O obstetra olhou para os genitais do recém-nascido e sentenciou imediatamente dirigindo-se aos pais: “- parabéns! É uma linda e saudável garotinha!” E tascou-lhe tapinhas na bunda para provocar o choro que saiu forte e esganiçado como o de um moleque. Assim agiu por não ter divisado no nenê o instrumento de diversão masculino e de lazer feminino. Mas quando a enfermeira foi limpar minuciosamente a criança preparando para colocar nela macacõezinhos cor de rosa, notou um borrãozinho entre as pernas do bebê. Pensando ser algum tipo de verruga, chamou a atenção do doutor. Este, sem conseguir definir o que era aquilo a olhos desnudos, pegou uma lupa e assombrou-se. Aquilo parecia um pinto! O menor bilau do mundo! O menor bastão de todos os tempos, mas era um pênis com certeza!

Imediatamente, para a surpresa dos pais e de todos os presentes, o médico alterou o veredicto: “-gente, gente, é um menino! Ele tem uma espécie ridícula de benga, mas tem!” Todos haviam ficado satisfeitos com a menina que chegara, mas receberam com extrema alegria a novidade! Vaidosos, os pais comemoraram a chegada do primogênito e enquanto admiravam extasiados o rebento, o médico convocou os principais colegas presentes ao hospital para que viessem examinar o estranho objeto que se assemelhava a um projeto de pica. O diagnóstico foi unânime: estava claro que era o menino que nascera com o pênis menos avantajado que poderia já ter existido. Ao perceberem o ar preocupado do pai, os luminares se apressaram a acalmá-lo, afirmando que apesar de ser um caso raríssimo, provavelmente o menino teria um desenvolvimento comum e normal, pois tudo nele era perfeito. O jeito era dar tempo ao tempo para aquela amostra de pirulito se transformar num insignificante talo, depois num miúdo cajado e quem sabe mais tarde num portentoso, garboso e negro trabuco bem dotado!

O negrinho cresceu e tudo progrediu a contento, menos o borrãozinho entre as rotundas perninhas. Já tinha um ano e não se conseguia ver direito as bolas daquele pintinho, uma vez que tinham o diâmetro na medida da ponta de um fósforo. A certeza de que aquele órgão era uma amostra de vara ganhou força porque dele saia xixi e não era um buraco, nem era o lugar de uma vagina, portanto as dúvidas estavam completamente dirimidas. Ali existia um socador. Os pediatras mais experientes da época foram consultados, mas a recomendação foi a mesma. Era cedo demais para se preocuparem com o tamanho do pichuleco da criança. Tinham que aguardar o menino e seu peruzinho crescerem.

O tempo passou para o menino, mas para aquele micro bingolim não. Continuava praticamente imperceptível. E quando o moleque estava na escola por volta dos seus oito anos, a diferenciação bateu forte à sua porta. Não o velado preconceito de pele por ser negro, o que era bem aceito naquela comunidade e pouco percebido pelo garoto, pois os pais dele tinham posses e eram pessoas influentes, mas sim algo dolorido que o magoou demais. Era inevitável que após as aulas de ginástica cedo ou tarde os coleguinhas descobrissem o tamanho do seu catoco. E por mais que ele adiasse aquele acontecimento, não conseguiu evitá-lo. Todas as aulas ele ficava por último para o banho, mas num dia específico a turma toda permaneceu no vestiário, desconfiada de que havia algo errado com o colega e a curiosidade os fez agir. Sorrateiramente vindo pelas costas sem que o nosso personagem percebesse, um dos amiguinhos puxou a toalha que o enrolava. Foi um desastre para ele. A turma apontou para os seus genitais procurando a ferramenta, mas surpresos perceberam que o negrinho era totalmente desprovido de piroca. Ele pulou, tentando pegar a toalha para esconder suas vergonhas, mas a turma não foi condescendente. No auge da maldade e da marginalização infantil, chamaram um japonesinho que nas brincadeiras era tremendamente gozado pela fama oriental das limitadas estaquinhas, para um teste de tamanho de pironga. Foi terrível para o negrinho, porque perto do dele, o japonesinho até que tinha um respeitável tarugo!

O NEGÃO - Parte 3


Imediatamente apelidaram o rapazote de Negão Japonês. Nem pensem que havia alguma distinção pejorativa das crianças em relação a essas raças. O menino era negro e não tinha o menor problema em ser chamado de Negão, aliás, assim era chamado o seu pai. E o Japonês complemento do apelido também não apresentava nenhuma destrinça a essa raça de tanto destaque em nosso planeta, mas pegava firme no brio de negão do moleque porque isso remetia às propaladas características orientais de terem o canudo acanhado. Ele sentiu-se o mais desprezível dos seres. Todos os negros do mundo eram possuidores de privilegiados cacetes, os famosos três-pernas. Por que isso fora acontecer justo com ele? O seu pai era detentor de um badalo de 33 centímetros, por que com ele a genética falhara? Tudo em seu corpo era primoroso, se não fosse esse maldito detalhe que lhe atravancava a vida social desde cedo.

Quando o menino fez 13 anos os pais, compadecidos com a tristeza do garoto e preocupados com a precariedade do futuro sexual do pimpolho, resolveram consultar os principais especialistas no assunto, já que os pediatras nada haviam feito alegando que o gaiato estava em fase de desenvolvimento. Mas os especialistas consultados julgaram que aquela situação inusitada não poderia esperar para ser resolvida. Aquele indício de espiga era um desafio para a ciência.

O primeiro especialista recomendou aumentar a hastezinha através do método da tração. Os seus estudos indicavam que uma bengala submetida à tração gradual e contínua, poderia obter um aumento do tecido peniano de até 2,5cm em quatro meses. E lá foi o Negão Japonês colocar o milagroso aparelho esticador de bambu por pelo menos dez horas diárias. Foi um custo para construírem um microscópico instrumento que se adaptasse a tão pequeno bigorrilho. Estica dali, estica daqui e nada da flechinha se movimentar. Aumentaram a tração para o máximo, mas o cabeçudo não se movimentou um milímetro. Desafiado por tão retumbante fracasso, o especialista resolveu apelar para a instalação de bombas a vácuo acopladas ao aparelho de tração, para que a vaso-dilatação contribuísse para o crescimento daquele mísero caralho de merda, mas desistiu. Conseguia resultados temporários, mas era só retirar toda a traquitana que o dengoso voltava ao estado de quase inexistência. O Negão Japonês frustrou-se e recolheu-se conformado a sua secundária posição de eunuco em plena adolescência.

Os pais do menino não desistiram e foram à procura de outros peritos, viajando com ele para a Europa. O primeiro clínico consultado por lá prometeu solução através de um método natural, receitando uma série de exercícios em que o menino utilizaria as próprias mãos. O Negão Pai quase teve uma síncope no consultório. Se o moleque não conseguia manipular a porra da girombinha, como iria exercitá-la? O cara queria aumentar o pênis do menino com punhetas? Ia pagar uma fábula para uma estultice dessas? Chamando o médico de charlatão, foi atrás de cientistas mais sérios numa verdadeira maratona. O Negão Japonês foi cobaia de vários experimentos. Na sua jebinha prenderam pesos, instalaram aparelhos de estimulação eletromagnética, passaram pomadas, deram banhos de ervas. Tentaram cirurgias, injeções de metacril e gordura. Nada deu certo. Finalmente derrotada a ciência, apelaram para curandeiros e benzedeiras, mas a mangueirinha não cresceu nem com reza braba. O auge do insucesso ocorreu quando um desavisado médico sugeriu que o menino extirpasse logo o embrião de banana e mudasse de sexo. Isso foi demais. O Negão Pai quase matou o doutor de pancada...

Quando o garoto contava 15 anos, estava tão belo e imponente que já havia iniciado a trabalhar como modelo, ao mesmo tempo em que seguia os estudos numa conceituada escola parisiense. Com um físico privilegiado, aproveitava para praticar diversos esportes. Vivia, entretanto, esgueirando-se pelos vestiários masculinos e só tomava banho em sua casa. Tinha o inconveniente de ter que urinar sentado como as mulheres, pois senão lambuzava-se todo, mas isso só acontecia nos reservados dos toaletes, portanto conseguia ocultar esse procedimento dos amigos. Apesar dessas restrições e do distanciamento que mantinha das mulheres, que dele nunca se tornavam mais íntimas apesar de se derreterem inteirinhas, o Negão Japonês relacionava-se muito bem com todas as pessoas. Era um aluno brilhante, um jovem alegre, espirituoso, começava a participar de campanhas publicitárias e ter fotos estampadas em publicações importantes. Mas sabemos que neste mundo vil e traiçoeiro nenhum segredo é guardado por muito tempo. Algum médico ou curandeiro havia aberto o bico e certa noite a sua família recebeu a visita de um empresário ucraniano, dono de um dos maiores circos do continente europeu.

O NEGÃO - Parte 4


Os pais ficaram pasmos com a proposta do empresário, que queria contratar o adolescente como uma atração do circo, uma aberração da natureza. Assim como os anões, os gigantes, a mulher barbada e o homem elefante, o jovenzinho poderia fazer estrondoso sucesso como Negão Japonês, o Jovem com a Menor Bitoca de Todos os Tempos. Fariam concursos para descobrir o menor afrouxa pregas de cada cidade visitada e assim ele ficaria mundialmente famoso. O empresário acenava com a possibilidade de ele ganhar muito dinheiro e ter uma vida repleta de aventuras, uma vez que ele nunca seria feliz completamente sem uma companheira que pudesse conviver normalmente com ele. Enquanto o empresário ia falando, na mente do rapaz foi formando um turbilhão. A humilhação o deixou indignado. Ali estava um conhecido mercenário das ilusões, um mero explorador das vicissitudes e anomalias humanas, querendo aproveitar-se do fato dele ser o único negão da Terra que ao invés de ter uma anaconda tinha uma isca de minhoca como pinto. Recusou veementemente o oferecimento e o Negão Pai ameaçou o dono de circo com um processo caso a peculiar condição do filho fosse divulgada. O empresário garantiu que guardaria segredo, lamentou a negativa, desejou boa sorte a todos e foi-se retirando, não sem antes pedir para dar uma espiadela, só uma espiadela no menor croquete já criado por Deus. Agarrado pelos fundilhos, o incauto empresário foi jogado pelo Negão Pai no meio da rua.

Assim foi seguindo a vida do Negão Japonês, ora em meio ao glamour do mundo da moda e da publicidade, ora circulando no meio artístico. Adormecia sempre só e amargurado, mas agora adulto o seu êxito profissional era patente. Consideravam-no um artista excêntrico e a grande aposta que se fazia era até quando ele conseguiria agüentar sem que capitulasse ao assédio das beldades gostosonas e famosas que o circundavam. E ele continuava flertando, provocando, apaixonando com seu charme, beleza, inteligência e corpo escultural. Até que uma noite, num monótono coquetel de lançamento de livro onde comparecera somente para levantar uma graninha, avistou a mulher mais formosa que os seus olhos já tinham fitado. Quando viu aquela divindade paralisou, o seu coração disparou e ele ficou arrepiado dos pés à cabeça. Tinha que conhecer aquela moça que até aquele momento fora a única do evento que não havia dado sinais de ter reparado na sua presença. Observando o que a linda mulher estava bebendo, esperou o copo dela ficar vazio para se aproximar e oferecer outro drink com o sorriso mais sedutor que possuía. A moça agradeceu a gentileza com um sorriso também estonteante olhando nos olhos dele, o que fez o rapaz perder a fala. Mas ela falou. Falou que se chamava Mariana.

George, o Negão Japonês, retribuiu a apresentação anunciando o seu nome. Ele necessitou da vasta experiência adquirida nas perambulações pelo mundo, da desinibição de ator e do jogo de cintura de modelo para se recuperar e começar a conversar com Mariana sem gaguejar. Pela primeira vez uma mulher o intimidara. Aquela moça realmente causara um efeito devastador no âmago do moço, que sempre galanteava as mulheres até um ponto máximo de aproximação. Concedia um beijo no rosto, selinhos, um roçar de dedos pela face e fortes abraços que as faziam estremecer. Desde os seus 18 anos, quando desistira de qualquer tratamento para aumentar a escassa geringonça, ele utilizava tanto nos desfiles quanto nas festas uma espécie de prótese peniana para simular que era dotado de um respeitoso falo de negão. Quando andava altivo pelas passarelas somente de sungas ou ceroulas, as mulheres percebiam aquele grande volume sob a roupa, enlouqueciam e depois tinham sonhos eróticos com a gigantesca chulapa penetrando-as de todas as maneiras. E nos eventos, quando abraçava uma mulher, não havia uma que não corasse e ficasse excitada ao sentir aquele membro desproporcional tão rígido junto ao corpo. Mal sabiam que era uma ferramenta falsa e inerte.

Mariana mexeu tanto com a cabeça do modelo que ele se esqueceu que praticamente não era provisionado de tora. Mas ele estimara demais aquela mulher com quem havia entabulado uma conversação incrivelmente aprazível. Tinham gostos semelhantes, apreciavam arte de forma geral, cultuavam os exercícios físicos, adoravam viajar, preocupavam-se com as causas sociais, tudo se harmonizava entre eles. Imediatamente o Negão Japonês se apaixonou por cada expressão, gesto e entonação de voz da donzela. Mariana formara-se em literatura, era belíssima e tinha um corpo que o fazia suar frio só de imaginá-la nua. Nua? Esse pensamento repentino quase explodiu o seu cérebro. A sua visão escureceu, ficou tonto, o salão girou freneticamente... Como poderia ele vê-la nua se nunca poderia ficar nu também para fazer sexo com sua amada? O seu destino era o de ser um eterno virgem. Que ironia. Um negão daquele porte, um dos principais símbolos sexuais masculinos do país, nunca poderia expor aquele seu irrisório e sem valor pituzinho para a mulher que lhe havia despertado tão profundo e ardente sentimento que naquele instante doía até na alma.

Mariana percebeu o mal estar do Negão Japonês, mas antes que ela pudesse se manifestar, ele se recompôs e convidou-a para sentarem e continuarem o papo na parte externa do Buffet. A moça acompanhou-o e sem cerimônias passou o braço dela pelo do dele. E de braços dados com a maior naturalidade, foram ao jardim sob as vistas incrédulas de convidados e jornalistas. Aquilo se propagou como uma bomba no coquetel. Será que finalmente o Negão Japonês seria conquistado por uma atraente mulher? O buxixo rolou solto no salão e os fotógrafos registraram toda a cena. Indiferente aos comentários e ao espocar dos flashes, George ficava cada vez mais impressionado com o jeito cativante de Mariana. Era uma mulher ao mesmo tempo tentadora, mas recatada, ousada, mas com moderação. Tudo nela fazia ser uma pessoa encantadora e os olhos do Negão Japonês brilhavam maravilhados. Ele passou as mãos carinhosamente nos cabelos da moça e não agüentando mais encobrir os seus anseios, deu-lhe um rápido beijo nos lábios. Mariana, mais instigante do que ele, segurou o rosto de George e beijou-lhe deliciosa e longamente, explorando com sua língua quente a boca sequiosa de amor do Negão Japonês. Namoraram muito sem se importarem com a comoção que causaram e quando se despediram tinham a certeza de que ali havia começado uma extraordinária estória de amor.


O NEGÃO - Parte 5

Naquela noite em seu quarto, o inesperado aconteceu. Sem que conseguisse tirar Mariana dos seus pensamentos, George foi relembrando os momentos agradáveis que tinham passado juntos. A graciosidade da namorada, a troca de carinhos, os abraços ardorosos, os beijos apaixonados, tudo aquilo foi estimulando o rapaz de tal forma que de repente ele descobriu que estava tendo a primeira ereção da sua vida! Quando olhou para baixo o seu biscoitinho estava duro e com pouco mais de “dois centímetros de comprimento”. O Negão Japonês foi às lágrimas de emoção. Aquilo não era suficiente para ele ter uma vida corriqueira ao lado da sua consorte, mas já permitia que com a ajuda de uma pinça ele pudesse até se masturbar! Pulou da cama desesperado. Será que agora conseguiria uma solução para fazer o seu apoucado consolo crescer? Mas já tinha passado por tantos especialistas. Começaria tudo de novo e correria o risco do escárnio e do vexame? Faria tudo para ter o amor eterno daquela mulher, mas valeria a pena ter esperanças? Ele tinha que ganhar tempo, inventar uma desculpa esfarrapada qualquer para não transar com sua amada. Inventaria convicções religiosas da família ou alguma tradição esdrúxula de fazer sexo só após o casamento. Enquanto isso decidiria se procuraria os médicos outra vez e aprenderia técnicas sexuais para levar a namorada à loucura, mesmo sem penetração. O problema era que abster-se de sexo na plenitude não combinava com duas pessoas tão jovens, modernas e saudáveis. Além disso, Mariana tinha se revelado tão fogosa no primeiro encontro que ele tinha sucumbido totalmente ao prazer dos seus afagos. Como fazer para não estragar tudo e não perder a mulher dos seus sonhos?

 Nos meses seguintes o romance tomou conta da mídia. Fotos do casal namorando em vários eventos tomaram as páginas dos jornais e das revistas de variedades. A manchete relativa ao primeiro dia de namoro fora estampada em letras garrafais e reproduzida em todo o mundo: LAÇARAM GEORGE! Nos programas de fofocas o tema passou a ser discutido exaustivamente e a vida discreta de Mariana foi completamente devassada e exposta. Quem era a mulher que conquistara o maior partido brasileiro? O que tinha aquela linda negra de tão fora do comum? Que armas ela tinha utilizado para seduzir o jovem modelo e ator? Mariana passou a ser admirada e invejada na mesma intensidade. Em todas as rodas de debates os jornalistas e apresentadores discutiam se George e Mariana tinham sido feitos um para o outro. Teve gente duvidando que aquele conto de fadas durasse. Mariana tirou tudo de letra. Preservando a sua vida particular e o amor por George, dava pouquíssimas e curtas entrevistas. E George teve que contratar seguranças para ambos, porque a perseguição dos paparazzis passou a ser inflexível. Contudo ninguém podia imaginar o verdadeiro drama que estava acontecendo. Nenhum escritor por mais perverso poderia ter criado um roteiro assim escabroso. A realidade era tenebrosa. George encontrava-se diariamente com Mariana e a cada momento o amor e dependência mútua dos dois aumentavam, mas o seu catatau não. Todas as noites o rapaz reclamava e descrevia sua revolta ao Deus cruel e impiedoso que tornara a sua existência uma tortura.

Em certa madrugada a insônia martirizou George tão violentamente que ele bebeu álcool pela primeira vez, entornando uma garrafa de whisky. Não sabia o que fazer. Os médicos não lhe haviam trazido novas perspectivas. Não podia dividir a sua angústia com ninguém, muito menos com a mulher que amava mais do que tudo na vida. Sem Mariana nada mais faria sentido, não haveria mais luz, a graça de respirar acabaria. Ele se sentia um farrapo humano, um deserdado da sorte, um órfão de alegria. O Negão Japonês se resumia num miserável infeliz com o mais subalterno toco do universo. Devido ao adiantado da hora não havia fotógrafos de plantão e os seguranças dormiam no apartamento. George saiu discretamente quase ao amanhecer para perambular a esmo pelas ruas completamente embriagado, até que chegou a porta de um prostíbulo. Imediatamente reconhecido pelas três prostitutas que ainda estavam na casa, ele entrou amparado pelas meninas, que ao verem o estado deplorável do coitado deitaram-no numa cama, mas aproveitaram para cobrir aquele sonho de consumo feminino de beijos.

Primeiro tiraram a blusa do Negão Japonês e as três simultaneamente o brindaram com as carícias mais eróticas. Morderam o pescoço, os lábios e o tórax que era um espetáculo, depois lamberam a barriga tanquinho. Os sapatos e meias dele foram dispensados pelas quengas sem que o jovem conseguisse esboçar qualquer reação. A sua visão estava turva. Sabia o que estava acontecendo, mas não conseguia impedir ou emitir qualquer protesto. As putas, na maior agitação, agradeciam aos céus aquela recompensa merecida recebida após árduas horas de trabalho. As profissionais do sexo foram abrindo o cinto da calça e abaixando o zíper do modelo, ao mesmo tempo em que com as mãos e línguas exploravam o corpo daquele homem irresistível. Esfregando os corpos no corpo do Negão Japonês, as três meretrizes se prepararam para o clímax, e aproximando as bocas carnudas da cueca samba canção que o moço usava, puxaram para baixo o incômodo pano.

As três rameiras, com os olhos arregalados, caíram para trás se esborrachando no chão. Cadê a baguete, o escavador, o bate-estaca, o chouriço, o ferro, o cipó daquele homem? O que era aquilo, aquele botãozinho durinho ali no meio das pernas do notável negro? Impossível. As vagabundas não acreditaram no que viram. As gargalhadas foram estrepitosas. Elas choraram de tanto rir e o Negão Japonês ali entregue, indefeso. E o descuidado bebum inexperiente nem conhecia a máxima “cu de bêbado não tem dono”. As vadias resolveram compensar a decepção divertindo-se com George. Pegaram diversos instrumentos para uma sessão de sexo sado-masoquista daquelas: chicotes, vibradores, correntes, algemas, anéis e assemelhados. De uma forma ou de outra o Negão Japonês ia perder a virgindade. E perdeu!

Quando melhorou levemente do porre com o rabo ardendo, recuperou a consciência e se viu pelado na frente das três pervertidas. Implorou para que elas devolvessem as suas roupas e para que mantivessem segredo da sua desgraça. As mulheres de vidas que se tornariam realmente fáceis soltaram as algemas e pediram grana, muita grana. George nem pestanejou. Fez três cheques de valores que iam resolver a situação das moças. Bastava elas aplicarem o dinheiro que passariam a “dar” apenas por prazer. Beijaram muito o Negão Japonês, agradeceram a “generosidade” com sorrisinhos sarcásticos e juraram que nunca iriam contar a qualquer pessoa que ele tinha uma zimba tão inferior, quase igual ao pinto de um pinto! Riram mais um pouco e foram embora para nunca mais voltarem. Andando meio diferente, o Negão Japonês chamou um táxi e correu pra por talquinho no loló...

O NEGÃO - Epílogo


Quando chegou a noite Mariana, sem saber das agruras do amado, foi à casa de George e abriu o coração. Não agüentava mais ficar longe. Compreensiva ela disse que aceitava as tradições familiares dele e que mesmo que não transassem ainda, o importante era o amor que ambos sentiam, a cumplicidade, o entendimento, a parceria, a magia que acontecia quando faziam qualquer atividade juntos. Ela sentia que ele a amava da mesma forma, percebia como ele ficava bem ao lado dela. Por que adiar aquela convivência que tão bem faria a ambos?  E continuou o discurso, afirmando que para ela o sexo não era o mais vital. Fundamental para ela era poder participar inteiramente da vida dele, partilhando cada segundo, valorizando cada momento, repartindo felicidades e dificuldades. Era somente isso que ela queria. Ser uma companheira leal, vibrante, amorosa e totalmente fiel. Ela, só por estar ao lado dele, seria uma mulher satisfeita, feliz e completamente realizada.

Aquilo o atingiu feito um raio. O seu coração foi tomado de aflição ao ouvir as palavras que qualquer homem gostaria de escutar de uma mulher. E agora? Enquanto Mariana falava o Negão Japonês pensava no que fazer. A vontade dele era abraçá-la, beijá-la sem parar, passar as mãos pelo deslumbrante corpo da sua amada percorrendo e curtindo cada pedacinho. Desejava mesmo era arrancar as roupas dela e possuí-la loucamente com a paixão desvairada que pulsava dentro dele. Queria aquela mulher para toda a vida, mesmo com uma jurumba tão insuficiente. O Criador tinha sido deveras sovina com o seu roliço, mas ele não podia mais viver sem Mariana. Não havia saída, a sinuca estava na mesa. Teria que confiar no extremado amor que experimentavam um pelo outro. E o que fez foi ajoelhar-se aos pés da sua ninfa, emocionado e com os olhos marejados. Trêmulo pegou as mãos de Mariana, beijou-a ternamente e com a voz embargada pediu a sua amada em casamento, mesmo morrendo de medo do que o futuro pudesse lhes reservar.

Mariana ajoelhou-se ao lado de George e beijou-o tão ardorosamente que o calor dos lábios deles se tocando tomou conta dos seus corpos inteiramente. Foram para o quarto e deitaram-se na cama abraçados. A paixão era tão sólida, a sintonia tão magistral, que a energia que rolava no momento os aqueceria por todo o inverno. Os carinhos foram aumentando, não dava para segurar. O rapaz, fervendo, mas suando frio, sentia a sua sarobinha dura e ereta com dois centímetros de comprimento. Mariana vibrava excitada nos braços de George, que a amava tanto que não poderia encobrir dela o seu segredo, mesmo que ela o rejeitasse. Ele entenderia e acataria a decisão daquela mulher maravilhosa com a qual gostaria de fundir-se.

E chegou a hora da verdade, o momento da revelação, o instante em que aquele romance tornar-se-ia definitivamente impossível. Não se localizou nos arquivos dos corações, não se tem notícia de ter existido tamanho amor platônico. Esses eram George e Mariana, donos de um sentimento tão poderoso e que poderia se tornar fugaz como aquele dia em que se acorda e se sabe que será o melhor dia da nossa vida, mas com prazo para terminar à meia-noite. A saudade desse dia ficará guardada perpetuamente na memória, pela intensidade do que se viveu. Um amor cujo gosto nunca mais sairá da boca e exalará interminavelmente dos poros em cada gota de suor. Uma paixão que circulará no sangue como um vício sem cura enquanto houver alento. Uma separação que levará os sorrisos para lugares tão distantes que nunca mais alguém os encontrará. E uma estória que se transformará numa lenda cantada pelos trovadores e poetas com a melancolia dos lobos da estepe uivando pra lua.

Quem olhasse para os olhos de George naquele momento saberia toda a dor do mundo. A dor do sol quente e solitário na imensidão do céu. A fria dor vivenciada pela própria solidão abandonada à beira mar. Ele continha o olhar do náufrago para o céu estrelado. Porém, mesmo com o Negão Japonês prevendo a tragédia, as roupas foram caindo até sobrarem apenas a cueca e a calcinha. George e Mariana olharam bem fundo nos olhos um do outro. Ele até que corajosamente respirando arfante e ela um tanto quanto temerosa com a respiração presa, tiraram as roupas que restavam.

Mariana abriu o mais suntuoso e extraordinário sorriso ao olhar a subdesenvolvida vassourinha de George. À espera de ser vexado ele não resistiu e olhou pela primeira vez para os pelos pubianos bem depilados que protegiam a vagina da moça. Queria pelo menos saborear aquela única oportunidade de admirar a obra celestial em que sonhava mergulhar para misturar-se, derramando nela as águas caudalosas da sua paixão. Todavia o Negão Japonês teve que balançar a cabeça para crer no que via. Ao primeiro exame não encontrou a xoxota da amada. Mariana continuava sorridente enquanto ele esfregava os olhos procurando o paraíso feminino naquele triângulo das bermudas. Olhou com mais atenção e percebeu um orifício tão pequeno que praticamente nem parecia ser uma vulva. Nem o seu dedo mindinho penetraria a minúscula preciosa da sua amada, tão milimétrica era ela. Descobriu arrebatado que Mariana tinha a menor vagina de todas as mulheres do mundo, a anfitriã ideal para a sua pequerrucha salsichinha!

A resposta finalmente fora dada. Uns acreditam que não cai uma folha de uma árvore sem que o Criador o permita e outros têm a certeza de que simplesmente a natureza é sábia. George e Mariana realmente tinham sido feitos um para o outro, mas não lhes importava quem os fizera. Quis o destino que se encontrassem. Um mero acaso, talvez. Quem acredita em sorte?
Sei que viveram felizes para sempre!


FIM

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

TADEU E MARIETA

Tudo começou quando Tadeu e Marieta foram colocados no mesmo berço. Tadeu olhou para a nenê loirinha, linda, rechonchuda, de bochechas rosadas, olhinhos verdinhos como natureza, perninhas cheias de dobrinhas e imediatamente abriu o sorriso sem dentinhos. Marieta também sorriu sem dentinhos ao ver aquele bebezinho bonitão, gorducho, quase balofo, sem blusinha, de cabelos e olhos negros como a meia noite e imediatamente ofereceu sua chupeta para Tadeu. Sabe o que é isso? Um bebê abrir mão da sua chupeta para oferecer a outro bebê? É o maior gesto de desprendimento possível entre bebês. Nunca ninguém descobriu, mas existe um código de ética entre os bebês. Não se rouba ou chupa a chupeta alheia, pois a chupeta é a melhor amiga, o grande conforto dos recém viventes. As pessoas crescem, ficam adultas e adúlteras, duras de coração e de bolso e esquecem as chupetas que tanta companhia lhes fizeram nos momentos assustadores da escuridão de um quarto monstruosamente grande, onde eram largadas por momentos infindáveis até que o desespero lhes fazia desentumecer as gargantas, rasgando-as com um choro ensurdecedor que transcendia das casas para ouvidos vizinhos. É claro que talvez até inconscientemente, algumas pessoas adultas acabam buscando alternativas de conforto chupatório, como cigarros, pirulitos, sorvetes, balas, chicletes e aquilo, sim aquilo que vocês mulheres sabem muito bem, o maior substituto das chupetas quando as mulheres crescem: o, o, o.......................chocolate! Bem, nada disso vem ao caso nesta história, cada uma que coloque na boca o que quiser, foi apenas uma divagação para aumentar este parágrafo enquanto eu penso o que vou escrever no segundo!

Voltando ao que interessa, Tadeu pegou e colocou a chupeta de Marieta na boca com muito gosto. Tirou-a de olhinhos arregalados porque tinha um sabor muito diferente da chupeta dele.Esta era doce, suave, agradável demais. Não sabia raciocinar direito, mas se soubesse certamente estaria pensando que nunca trocaria aquele sabor da chupeta de Marieta por nada neste mundo. Imediatamente, num outro gesto de desapego e carinho, Tadeu ofereceu a chupeta dele para Marieta, que a aceitou prontamente colocando-a avidamente na boquinha. Ficou espantada e estranhou o sabor meio ácido e um pouco amarguinho da chupeta do amiguinho, mas insistiu, começou a gostar, foi gostando pra valer e passou a gostar muito. Não deixaria ninguém nunca mais tirar aquela chupeta dela. Ficaram assim, sentadinhos um na frente do outro com as chupetas e vários brinquedinhos, até Tadeu de repente ficar vermelho, muito vermelho, parecendo que ia explodir. Era um terrível e mal cheiroso coco. Não um mero cocozinho, mas um coco digno de um homenzarrão após uma faustosa feijoada.

A emoção do encontro com Marieta havia mexido profundamente com o menino, pois as mulheres são mais fortes desde tenras idades. Sexo frágil o escambau! Feito este desabafo digo que um nenê emocionalmente abalado tem duas armas poderosas: se esgoelar num choro estrondoso ou produzir um poderoso e mortífero coco. Tadeu havia caprichado, pois o fedor atravessou o quarto e chegou às narinas maternais de ambas as crianças, que mantinham uma conversação genérica sobre a banalidade e futilidade das pessoas há cerca de três horas e meia. As ricaças tamparam os respectivos narizes e correram para o berço onde estavam os babys. Quando elas chegaram Tadeu iniciou a segunda etapa da sua ação, começando a chorar estridentemente. Mas o cheiro do coco de Tadeu havia entrado pelo delicado sistema olfativo de Marieta que no início ficou paralisada, mas quando as mães já estavam com os dois nos respectivos colos começou a vomitar em certeiras golfadas, enlambuzando caras e roupas das mulheres que não sabiam se acudiam as crianças ou ficavam histéricas. Elas resolveram, como exemplares dondocas, ficar histéricas e chamar as babás para resolverem a perturbadora situação. As zelosas funcionárias limparam as crianças que foram se acalmando paulatinamente, enquanto as mães retornaram para a conversação veemente a respeito das pessoas inativas e ociosas. Ninguém percebeu que Tadeu e Marieta haviam trocado as chupetas e foi assim que um começou a se acostumar com o gostinho do outro.

Tadeu nascera filho de um poderoso banqueiro e empresário, temido pela extrema frieza nos negócios. Gente para ele não significava nada. Utilizava de todos os artifícios lícitos e ilícitos para aumentar suas riquezas. O grupo empresarial que presidia já fora acusado dos delitos mais variados como suborno, fraude, infrações trabalhistas, transações ilegais no exterior, evasão de divisas, sonegação de impostos e até contrabando, respondendo a inúmeros processos cíveis e criminais. Marieta era descendente de um implacável juiz federal considerado incorruptível, especialista em crimes financeiros. Também para ele gente não significava nada. Membro atuante e respeitado em todas as esferas da sociedade, perseguia políticos corruptos e empresários desonestos. Adversário número um dos “crimes do colarinho branco”, lutava firmemente contra a impunidade.

Nem preciso dizer que o banqueiro e o juiz eram inimigos mortais. O juiz há anos tornara-se responsável pelos processos escandalosos que envolviam o banqueiro, mas nunca conseguira chegar até ele ou aos escalões mais altos do grupo. Como tudo aqui mistura realidade e ficção, gostaria de deixar claro que não há nenhuma referência a pessoas conhecidas, mesmo porque todos os juízes são incorruptíveis, afinal eles aplicam as leis, e nenhum banqueiro é ladrão, afinal eles guardam o nosso dinheiro, não é?

Mas nesta estória, certamente real era o amor de Tadeu e Marieta desde a cena do berço. Por uma ironia do destino as mães das crianças tornaram-se amigas desde a adolescência e ficavam completamente alienadas ao que acontecia com os respectivos maridos. Não ignoravam o fato de que eles se detestavam, mas elas mantinham a amizade. As mansões das duas famílias situavam-se na mesma rua, uma de frente para a outra e os patriarcas, que se dedicavam muitas horas por dia aos seus trabalhos, não tinham a menor noção do que faziam ou não faziam suas madames, nem imaginavam que seus pimpolhos estavam desde nenês se apaixonando. Mas mesmo que Tadeu e Marieta soubessem que este romance poderia virar uma tragédia pelo profundo ódio nutrido por seus pais, não resistiriam aos apelos de um amor que brotara tão naturalmente e fora crescendo junto com eles. O imbróglio não é original, mas quando eu continuar falando como as crianças foram se apaixonando mais e mais você vai saber que nunca viu nada igual.

Certo dia as madames estavam verificando as respectivas agendas, as agendas de seus cães e gatos que tinham cabeleireiros, dermatologistas, adestradores, personal trainers, aulas de natação e festinhas de aniversários marcadas e também as agendas dos filhos adolescentes que estavam repletas de cursos e atividades. Olhando com atenção elas descobriram que sobrava uma brecha três dias da semana das onze até as quinze horas. As duas amigas resolveram então ocupar os preciosos tempos discutindo suas ações filantrópicas para manutenção e tratamento dos cavalos da hípica paulista, ou avaliando suas performances nos cursos de pintura rupestre em cerâmica chinesa, também comentando as últimas novidades em cremes faciais e tratamentos estéticos desenvolvidos por um ilustre cientista indiano e até acompanhando o concurso de paisagismo em jardins de mansões promovido pela revista Varas, coisas assim importantíssimas às quais elas se dedicavam com afinco. Além de almoçarem um cardápio variado de comidas francesas, suecas, alemãs, japonesas, baianas, portuguesas e mineiras, culinárias supervisionadas por renomadas nutricionistas, uma vez que as megeras tinham que manter os corpinhos em forma para desfilarem seus vestidos europeus nos ambientes requintados que freqüentavam. O primeiro dia de colóquios e almoço havia sido aquele onde as crianças tinham sido colocadas no mesmo berço, mas os acontecimentos do coco e do vômito atrapalharam tudo. Ficaram de dar seqüência às ações outro momento.

Enquanto isso, os dois inimigos estavam em apuros. O banqueiro havia sido grampeado e pego falando barbaridades com um amante. Sim, um amante homem! Queriam descobrir as falcatruas, as armações, os complôs do cidadão e acabaram descobrindo que o banqueiro mantinha um caso homossexual! Mas o que um juiz incorruptível iria fazer com uma informação dessas? Nada, é claro. Dono de rígida conduta moral, segundo os seus conceitos e preconceitos, ainda destruiria as provas para resguardar os direitos do empresário e aquilo que considerava ser pertinente aos bons costumes sociais. Mas é claro também que um jornalista, essa raça quase tão sórdida quanto os advogados, bandidos e dentistas, conseguiu uma cópia da gravação ninguém sabe como e passou a chantagear o banqueiro. Não bastasse isso ainda afirmava que agia respaldado pelo Juiz. Por sua vez o Juiz acabara de sofrer uma tentativa de seqüestro em plena Avenida Paulista, com imagens dignas de Hollywood: tiroteios com armas de grossos calibres e metralhadoras, carros blindados capotando, bombas, perseguições pelas avenidas laterais, morte de populares, policiais, seguranças e bandidos, carros derrubando postes, sangue espirrando para todo lado. Fora uma gritaria desesperada, um verdadeiro inferno. Um único bandido acabara preso e confessando espontaneamente, após ser levemente espancado e torturado com delicadeza, que o mandante da tentativa frustrada fora o banqueiro. Tudo isso acontecera simultaneamente enquanto Tadeu e Marieta, isolados nos berços de suas mansões, sugavam com muita volúpia as chupetas trocadas sem imaginar as fortes emoções que viveriam. Foram se acostumando cada vez mais com o gostinho um do outro.

TADEU E MARIETA - Parte 2


Não sei o que está passando na cabeça de quem está acompanhando esta história. Aliás, muitas vezes nem sei ao certo o que está passando na minha própria cabeça, tantas são as coisas que nela circulam. Mas saibam que esta é, antes de tudo, uma história de amor. E como todas as intensas e verdadeiras histórias de amor, esta também envolve paixão, desejo, lirismo, inveja, ciúme, sexo, brigas, ódio, vingança, poesia e morte, porque amor é a essência da vida e tudo o que nela está contido acontece nas histórias de amor. Você acha que eu estou exagerando e inventando que Tadeu e Marieta começaram a se apaixonar no berço e aos nove anos enfrentaram o mundo pelo amor? Eu só estou contando esta história porque fico emocionado ao lembrar que vi Tadeu e Marieta, dois pequenos amantes, correndo de mãos dadas por uma estrada de terra nos cafundós do centro-oeste brasileiro com muita gente ruim atrás deles, tentando capturá-los. Essa imagem não mais saiu da minha cabeça e enche os meus olhos de lágrimas. Foi assim que fiquei sabendo deste romance incrível. Talvez você desdenhe, talvez você tenha perdido o romantismo ou endurecido o coração com o passar do tempo. Não posso julgar os seus motivos, mas nunca duvide do amor. Não duvide do amor só porque os personagens são dois nenês. Poderiam ser dois anciãos e daí? Bebês e anciãos não podem amar? Se Deus desse alma às pedras até as pedras amariam, se não tivessem os corações endurecidos. Não duvide.

Chegou o esperado dia das mulheres se encontrarem, portanto as crianças teriam oportunidade de também estarem juntas. O colóquio das duas rolava com a profundidade de uma gota de água na pia de uma cozinha, quando as senhoras mandaram umadas babás darem banho nos nenês e prepará-los para o almoço. A prestimosa babá preparou a banheira com água em temperatura agradável, colocou sabonetes, xampus e toalhinhas ao lado e vários brinquedinhos para os bebês se distraírem. Ela pôs as crianças na mesa de apoio e passou a despir Tadeu com ternura, sob os atentos olhinhos brilhantes de Marieta. O menino ficou peladinho e a babá fez o mesmo procedimento com Marieta, que também ficou peladinha sob os muito atentos olhinhos sorridentes de Tadeu.

Eu sou obrigado a fazer nova pausa, antes que alguma mente malévola ou pervertida comece novamente a pensar bobagens achando que lá vem sacanagem na seqüência deste causo, mas não é assim não, já falei que esta é uma história de amor. Lógico que os amantes fazem muita sacanagem juntos e não será diferente com Tadeu e Marieta, mas não agora, uma vez que eles só começaram a fazer sexo loucamente aos cinco anos de idade e aos nove os dois enfrentaram o mundo pelo amor.

Neste momento maravilhoso onde as crianças descobriram seus corpinhos nus, não teve sacanagem não. Teve é uma atração misteriosa, mística e quase sagrada de um pelo outro. Quem acredita ou já viveu uma história de amor à primeira vista sabe que estou dizendo uma verdade absoluta e que isto é possível. E muito mais ainda com bebês, a pureza humana ainda não corrompida. Tadeu e Marieta quando se viram juntos e peladinhos naquela banheira, sentiram a alegria imensa dos que vivem e se conhecem há anos e ainda tem prazer em compartilhar os momentos mais simples com o parceiro. Sentiram aquela cumplicidade que somente os amantes que se tornam amigos acima de tudo alcançam em suas vidas. Sentiram o que sente quem vive aqueles romances que não são de fachadas só para comemorar bodas de ouro e trocar alianças novas, quando as alianças das almas envelheceram e se perderam há muito tempo. Tadeu e Marieta conquistaram isso bebês, para inveja de toda a gente que não aceitou aquele amor e para as cabeças maldosas que pensaram que iria acontecer muita sacanagem neste capítulo, mas só viu a sensualidade natural de dois bebês peladinhos brincando e se apaixonando ainda sem saber disso. As crianças se davam tão bem que parecia serem uma só, respeitando os brinquedos que o outro brincava numa sintonia perfeita.
Continuando a estória, Marieta deu um tapinha na água e caiu naquela gargalhada deliciosa de bebê porque assustou Tadeu. Tadeu acabou gostando da brincadeira e também deu tapinhas fortes na água, molhando o rosto de Marieta que nem ligou. E assim, brincando e gargalhando na banheira, Tadeu e Marieta foram se acostumando um com o corpinho do outro.

Três anos se passaram e as desavenças entre os dois ferrenhos adversários só aumentara, tornando-se de interesse público. A contenda era constantemente divulgada pela imprensa em geral. O jornalista que chantageava o banqueiro havia morrido de causas naturais - naturalmente provocadas por espancamento numa madrugada em que chegava à sua residência. Pelo caráter duvidoso e pela quantidade enorme de desafetos que ele tinha o caso logo fora esquecido e arquivado. Quanto ao bandido que acusara o banqueiro de ter contratado o seqüestro do juiz, também acabara tendo morte súbita. Numa briga entre detentos uma faca fora enfiada no peito dele até o cabo. Assim o caso do seqüestro também acabou encerrado por falta de provas. Mas o que deixou o Juiz definitivamente injuriado e possesso foi ver nas revistas de celebridades fotos do banqueiro passeando na Europa. E o namorado dele também estava por lá!

Os homens se fustigavam e as esposas mantinham a firme amizade. Agora, além das conversas vazias, trocavam confidências sobre os seus amantes e ainda por cima perto das crianças, agindo como se elas não estivessem ali. Uma transava com o jardineiro e a outra com o motorista. Contavam animadamente os detalhes de suas perversões sexuais e ficavam enrubescidas, como se realmente tivessem alguma vergonha. No meio das brigas dos pais e da promiscuidade das mães, Tadeu e Marieta se distanciaram de tudo e foram solidificando a atração que nascera entre eles no berço. Aos três anos de idade o melhor momento da vida deles era quando estavam juntos, o que esperavam com extrema ansiedade. A separação era sempre dolorida e deixava as crianças amuadas, sem a mesma vontade de brincar ou comer. As babás percebiam isso sem dar importância ao fato.

O mundo era diferente para Tadeu e Marieta quando estavam lado a lado. Brincar passava a ter um significado especial. Cada peça dos joguinhos ganhava vida saltando para as suas mãozinhas, como vida ganhava o sorriso delas se divertindo para valer. A comida mudava de sabor, os aromas e os temperos se realçavam. A hora do banho então era uma delicia e assim eles cresceram como se fossem dois indiozinhos, sem que a nudez de ambos pudesse ser algo estranho ou pecaminoso. A intimidade que as crianças iam construindo era a intimidade da inocência e dos apaixonados que se entregam totalmente. Muito cedo em suas vidas seriam obrigadas a perder essa ingenuidade infantil, porque haviam conquistado um amor maduro que assustaria e chocaria pais, mães, vizinhos, religiosos, professores, pais dos coleguinhas da escola, policiais, médicos, psicólogos, a opinião pública e até a imprensa. Os pais, de forma vil e canalha, movimentariam todos os recursos para impedir o romance e afastar as crianças.

Alheios a isso, numa dessas brincadeiras após o banho Tadeu e Marieta limpinhos e cheirosinhos brincavam no tapete da sala em harmonia de se admirar. Só um artista com o refinamento de um Eugene Delacroix ou a expressividade densa de um Van Gogh poderia reproduzir inteiramente a beleza da cena dos dois pimpolhos transbordando alegria. Eles se abraçavam, pegavam, empurravam, apertavam e gargalhavam, até que Marieta tropeçou e caiu em cima de Tadeu, que foi de costas ao chão segurando a amiguinha em seus braços. Sem querer os lábios deles se tocaram. O tempo pareceu parar e eles ficaram imóveis. Nunca os olhos das duas crianças haviam chegado tão perto. Os olhos verdes de Marieta e os olhos negros de Tadeu acenderam uma luz tão intensa que iluminou todo o ambiente.

TADEU E MARIETA - Parte 3


Claro, meu caro leitor, que naquela idade eles não se beijaram como você e eu costumamos beijar, quase devorando e arrancando a língua de nossos parceiros e parceiras, enfiando as mãos pra todo lado. Mas provocado pelo destino, o beijo de Tadeu e Marieta fora beijo sim e provavelmente muito mais beijo do que muitos dos que nós já demos. Quando eles encostaram os lábios paralisaram imediatamente, reconhecendo o gostinho que haviam sentido e se acostumado quando trocaram as chupetas pela primeira vez. E como haviam se acostumado com seus gostinhos e corpinhos nus, passaram a se acostumar também com o sabor dos lábios um do outro.

Dois anos depois os negócios do banqueiro haviam se expandido de forma consistente para o exterior. Constantemente o poderoso empresário ia para a Europa em seu jatinho, para visitas à sede principal do grupo em Paris. O juiz também alcançara grande notoriedade em seu meio e fora nomeado para a suprema corte do país. Entretanto, colocar o inimigo na cadeia era ainda questão de honra e principal objetivo de sua vida profissional. Ele praticamente abandonara o casamento, passando muito tempo em Brasília. Tinha imenso amor pela filha e se sentia culpado em não oferecer a ela a atenção e o amor que gostaria, mas pensava ser por uma causa justa. Entretanto sempre tirava algum dia da semana para estar com Marieta. Nos casos do banqueiro, mesmo sem que o Juiz estivesse diretamente envolvido nos julgamentos do grupo empresarial, este os acompanhava atentamente,subdisiando promotores e delegados com a sua experiência e conhecimento. Exercia toda a sua influência para contribuir na aceleração e conclusão dos processos. Alguns casos já haviam chegado até a instância final e o banqueiro fora absolvido, causando grande indisposição do juiz com alguns dos seus pares. Até que finalmente, numa operação sigilosa da polícia federal, provas cabais de falcatruas do banco possibilitaram à polícia a prisão preventiva do banqueiro. O juiz até tremeu de emoção ao ver o banqueiro atrás das grades. Era o ápice da sua lustrosa carreira. Os advogados do banqueiro entraram com pedido de liberdade provisória no supremo tribunal federal e por uma coincidência era ele, o juiz hostil, quem estava de plantão. Fundamentado nas leis ele negou a liberdade ao banqueiro, que continuou encarcerado espumando de ódio.

Os advogados do banqueiro recorreram rapidamente e numa polêmica e tumultuada votação conseguiram a sua liberdade até julgamento do mérito da questão. Foi uma batalha jurídica incrível, pois o juiz teve que lutar contra vários de seus colegas de toga sendo vencido pela maioria. Ao sair da prisão o banqueiro fez o juramento de destruir o inimigo a qualquer preço. E para conseguir esse intento decidiu realizar uma ação monstruosa que certamente arrasaria e enfraqueceria o empenho do seu algoz em persegui-lo: daria sumiço na filha do juiz, a linda e delicada Marieta. Mal sabia o banqueiro o que estava acontecendo dentro de sua casa, nem com o coraçãozinho apaixonado do seu filho Tadeu. Se soubesse, porém, homem sem caráter ou qualquer escrúpulo, seria capaz até de utilizar um fato desses em proveito próprio. E foi o que acabou fazendo de forma sórdida e revoltante.

Tadeu e Marieta quando mais perto de completarem seus seis anos de idade, revelavam uma precocidade muito além da sensibilidade evidente. A inteligência dessas crianças era privilegiada e na escola que freqüentavam, acabaram tendo tratamento diferenciado pela facilidade de aprendizado que os colocava como pequenos gênios em todas as matérias, desde idiomas até artes, passando inclusive pela matemática que nem deveriam estudar ainda. Eles estavam anos-luz à frente das crianças de suas idades, mas começaram a chamar atenção demais porque não se largavam, viviam grudados, abraçados, dando beijinhos nos lábios, felizes como dois pombinhos em lua de mel. No início as professoras os acharam engraçados, mas depois percebendo que Tadeu e Marieta levavam realmente a sério aquela relação, repreenderam as crianças e as separaram de classe. O avançado desempenho deles se extinguiu, ficaram absortos, dispersos, com a cabeça em outro lugar. Estagnaram totalmente e nem das atividades básicas participavam. O caso foi levado à diretora que chamou as mães para uma conversa.

Apesar de separadas na escola, as crianças viam-se praticamente todos os dias em suas casas, brincavam, comiam, faziam os deveres da escola e continuavam até a tomar banho juntas, pois para elas os seus corpinhos nus eram vistos de forma tão natural quanto com roupa. Mas depois de tempos ouvindo as mães falarem sobre sexo, sexo, sexo e impactados pela baixa cultura disseminada pela mídia que não poupa crianças de seus tentáculos, ficaram curiosas e resolveram pesquisar como era, o que era e como se fazia aquilo. Como já sabiam manipular muito bem a internet, coletaram informações, viram fotos e filmes de todos os tipos. Ninguém estava nem aí em controlar o que essas crianças poderiam ver ou não, muito menos em orientá-las para tanto. Felizmente no caso delas, pela inteligência muito acima da média e pela sensibilidade exacerbada de ambos, as descobertas não acarretaram danos às suas personalidades. A facilidade com que as pessoas conseguem informações e a velocidade que ela circula entre as pessoas, faz a maioria dos pais não acompanharem os filhos no ritmo necessário para educá-los e prepará-los para este mundo onde a comunicação e a tecnologia comandam os passos gerais. Imaginem com as mães completamente desligadas, os pais ausentes e ninguém para suprir essas lacunas, as confusões e dúvidas que poderiam ter se plantado nas cabecinhas de Tadeu e Marieta.

Fora o risco de crianças nessa idade caírem na rede dessa praga que prolifera no mundo que nem ratos e baratas: os pedófilos. Creio que nenhum ser humano, por melhor coração que tenha, possa entender ou aceitar a mente e as ações desses doentes. Por princípios filosóficos sou totalmente contra a pena de morte. E mesmo nos casos de criminosos hediondos como esses eu continuo contra matá-los. Penso que enterrá-los até as cabeças dentro de um formigueiro seja mais do que suficiente para puni-los. Uma educação séria, voltada para a formação de pessoas com raciocínio, inteligência, talento, criatividade e sensibilidade, minimizaria a possibilidade de pessoas desenvolverem esses desvios inaceitáveis. Uma sociedade mais atenta ao homem corrigiria esses problemas a tempo.

Voltando ao nosso assunto principal, a pesquisa feita pelas crianças levou vários dias, porque até dvds de belos romances eles assistiram. Tendo nessa idade certeza de que se amavam - o amor deles nascera no berço e estava crescendo com eles - e como as pesquisas demonstravam que principalmente quem se amava fazia sexo, mesmo com idade entre cinco e seis anos Tadeu e Marieta decidiram experimentar: fariam sexo loucamente apaixonados como os grandes personagens dos clássicos romances do cinema mundial!

As mães de Tadeu e Marieta com a peculiar arrogância dos muito ricos dirigiram-se à escola na certeza de que receberiam os habituais elogios pelas performances brilhantes dos seus pequenos. Como as crianças pelo intelecto privilegiado que possuíam recebiam tratamento personalizado e estudavam matérias muito além do normal para suas idades, periodicamente a diretora reportava às mães o andamento dos seus aprendizados, sempre pedindo autorização para que elas avançassem algum período. Quando nem deviam ainda ter ingressado no primeiro grau, já tinham conhecimentos de quarto e quinto anos. Desprovidas totalmente de bom senso as mulheres se emperiquitaram para a reunião como se fossem a uma recepção no consulado francês regada a champagne Perrier-Jouet Belle Epoque safra 1995. A mulher do banqueiro usava um colar tão largo no pescoço que parecia um dourado enforcador de cães. Era tão ostensivamente atrativo que todos os olhares se viravam quando a madame passava. Até ofuscavam os olhos todos aqueles quilates de ouro. Já a mulher do juiz era discreta no colar. Portava um de prata reluzente e fina. Em compensação, os brincos, os anéis e as pulseiras dela poderiam enfeitar uma árvore de natal.As palradoras trocavam impressões sobre as últimas novidades relativas à decoração de toaletes em suítes de castelos medievais utilizados como hotéis na Europa, quando uma circunspecta diretora adentrou o recinto. Cumprimentou as mães com ar grave e foi diretamente ao assunto, que atingiu as senhoras como um uppercut desferido em seus queixos. Elas não acreditaram na ousadia da diretora em criticar o comportamento de Tadeu e Marieta, com aquelas alusões absurdas e maldosas quanto a eles não se desgrudarem, ficarem se agarrando e se beijando. As mães nem refletiram no que falara a diretora. Acusaram-na de pervertida, preconceituosa, mentirosa e maldosa. Elas julgaram a crítica aos filhos geniais uma afronta. A velha mestra havia virado de repente uma perigosa vilã e tentou explicar o estranhamento de todos os professores e alunos pelas atitudes de Tadeu e Marieta. Aí foi pior. As madames viraram bichos e colocaram as garras de fora.

A mulher do juiz ameaçou processar a escola, os diretores e os professores. A esposa do banqueiro afirmou que iria comprar o estabelecimento e despedir todos os funcionários. Surpreendida pela reação violenta das mães, a diretora tentou acalmar as mulheres mandando fazer um chá de raras ervas chinesas servido em xícaras de porcelana, afinal era um colégio de altíssimo padrão. Sabendo que estava falando com as esposas de dois homens extremamente poderosos e temendo pelo futuro dela e da escola, argumentou que havia se expressado mal e pediu desculpas. Passou a elogiar de forma desmesurada as crianças e até comentou que provavelmente ninguém ali teria entendido a amizade que elas tinham. As mães ficaram satisfeitas e foram embora sem saber que por motivos avessos tinham contribuído para momentâneos momentos de paz ao amor das crianças. A receosa educadora orientou todos os professores a fazerem vistas grossas ao relacionamento de Tadeu e Marieta, para garantir a sobrevivência daquela tradicional entidade de ensino. No futuro tudo isso iria causar grande transtorno a todos.